terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Trilogia Feita de Fumaça e Osso




Autora: Laini Taylor

Gênero: Romance, Fantasia
Editora: Hachette Book Group
Trilogia: Daughter of Smoke and Bone (Feita de Fumaça e Osso)
Days of Blood and Starlight (Dias de Sangue e Estrelas)
Dreams of Gods and Monsters (Sonhos com Deuses e Monstros)

Night of Cake and Puppets (Noite de Bolo e Marionetes)






          Com o passar dos anos a gente acaba ficando cada vez mais exigente com relação às histórias, tanto em livros quanto em mangás ou filmes, etc.. O que percebi é que, como diz o ditado: Nada se cria, tudo se copia. Então o que passamos a buscar são cópias originais. Um livro sobre um amor impossível [Romeu e Julieta?], entre criaturas de raças diferentes [A Bela e a Fera?], em um mundo onde a magia e a guerra estão tão presentes como o ar que se respira [O Senhor dos Anéis?]. Feita de Fumaça e Osso (Daughter of Smoke and Bone) é uma trilogia sobre esse amor, em meio a guerra entre duas raças, em um mundo paralelo. Séculos de guerra separam Anjos e Quimeras, uma raça tentando exterminar a outra. Em meio a essa batalha nasce o amor entre Karou, quimera, e Akiva, anjo, e com eles nasce um sonho de paz entre as espécies.


"Hope is the real magic, child."


          Karou é uma jovem de cabelos azuis, estudante de arte, que mora em Praga, e que em seu tempo livre busca dentes de diferentes espécies em diferentes partes do mundo para sua família, que é composta do que se chamaria de monstros. Ela tem de conciliar suas duas vidas, mantendo a magia e suas viagens, ocultas das pessoas da Terra. Apesar disso ela mantém tomos de desenhos realistas sobre essa vida oculta, onde toda espécie de monstros é apresentada. Para seus amigos humanos, ela apenas tem uma imaginação incrível, e ela descobriu que a melhor maneira de esconder a verdade sobre essa vida paralela é dizer que tudo é verdade. Humanos tem uma incrível capacidade de ignorar a verdade que está bem na sua cara, desde que essa verdade seja incompatível com suas crenças.





          Sua melhor amiga é Zuzana, uma jovem muito pequena, com aparência de boneca de porcelana, capaz de te reduzir a cinzas com um olhar. Zuzana herdou a tradição de sua família como marioneteira [palavra que fica muito esquisita traduzida.. puppeteer soa muito melhor..]. Há um livro que conta um pouco mais sobre essa personagem: Night of Cake and Puppets. É uma espécie de OVA, do primeiro livro, contando como ela conheceu Mik. Achei interessante porque na série parece meio estranho o Mik se envolver e ajudar Karou, com tamanho empenho, sendo que ele mal a conhece. Lendo esse OVA dá pra entender mais de sua personalidade, o que deixa as coisas mais claras. Além disso, é uma história muito bonitinha.





"Life doesn't need magic to be magical."








Autora: Nascida em Chico, Califórnia, se formou em Inglês pela universidade de Berkeley. Vive com seu marido, que é ilustrador, e fez a ilustração de alguns de seus trabalhos. Para maiores informações visite o blog dela: lainitaylor.com. No blog dá pra ver mais fotos dela, outros trabalhos e uma apresentação muito legal dela mesma [em inglês..], e também um link para os trabalhos de seu esposo, Jim Di Bartolo.





C.P.: Ando com uma preguiça monstro de fazer o que quer que seja, mas essa é uma história que te dá vontade de entrar e ser um personagem e visitar Praga, e conhecer os cenários por onde Karou passou, e viver um conto de fadas também. E apesar de ser um romance, a história não foca só nisso. Há todo um mundo, e suas civilizações e uma guerra e ser dissipada. O livro também trouxe um novo conceito de quimera, diferente daquele que vemos em mitologias. E como dito no início, é preciso inovar pra manter a atenção de velhos leitores.


"You were true to her, even if she was not to you. Never repent of your own goodness, child. To stay true in the face of evil is a feat of strength."

sábado, 7 de janeiro de 2017

Atentado Político

         Enquanto me amarravam firmemente e me aplicavam a injeção letal, só me restavam alguns momentos pra viver e nenhum remorso pelo que eu havia feito, fiz o maior dos sacrifícios pelo bem da humanidade, antes que mais mal pudesse ser feito eu tirei a vida dele.

         Foi uma fração de segundo, o dardo acertando o pescoço, os olhos lustrosos se revirando, o homem foi ao chão, o veneno funcionara, pessoas confusas, correria, gritos. O caos dominando a todos e em seguida eu que estava jogado ao chão, incapacitado, ondas de choque correndo pelo meu corpo, fui esmagado contra ao asfalto molhado e algemado, mas nada disso tirou de mim o sorriso. Fiz o que era preciso ser feito mas não sou um assassino frio e cruel, como pode ter parecido para muitos, nem nunca machuquei ninguém. Familiares, colegas, seguidores, apoiadores, simpatizantes, pensei no sofrimento de todos eles, pensei nas milhares dessas pessoas gritando de horror pelo que fiz a ele, mas isso enquanto bilhões de outras pessoas comemoravam com esperança não por aqui, mas por vários lugares.

         Ele se foi, e eu logo iria...

         Ser executado pelo Estado, foi a sentença oficial. Eu soube que apelos foram feitos ao meu favor, mas foram todos em vão. Me disseram também que eu evitaria a injeção se convencesse a todos que eu era louco, clinicamente, mas a verdade é que a razão e sanidade é que me permitiram fazer o que fiz, eu não podia ignorar o que estava acontecendo ao mundo. Os investigadores concluíram por fim que  eu não poderia ser diagnosticado como criminalmente insano, descobriram na verdade que eu havia sido durante minha vida "um membro respeitável e querido da sociedade, uma ameaça menor que qualquer outro cidadão", exceto, claro, pelo homem matei.

         Enquanto os sedativos faziam efeito em meu corpo, tentei escapar do medo e concentrar em pelo que sacrifiquei minha vida, relaxei,  sorri e fechei meus olhos para a luz da sala, o padre presente na hora da execução assim como manda a lei, se aproximou pesadamente e ajoelhou-se ao meu lado. 'Você percebe que irá direto ao inferno?' pensei em como a ideia de inferno em minha opinião estava longe da que ele imaginava, era minha menor preocupação, me preocupava mais o inferno que muitos vivenciam em carne e osso, eu abri meu sorriso um  pouco mais e ele respirou fundo, 'Acho que vc precisa saber que o sucessor do homem que você matou planejou toda essa situação'. meus olhos se abriram por completo para a luz gritante na sala branca, em minha face não havia expressão. 'O que você fez foi por nada'.
                                                                                          


         Essa pequena história foi fortemente inspirada na letra da canção punk The Man I Killed da banda punk norte-americana NOFX, conhecida pelo forte teor político e críticas a filosofias fanatistas, políticos controversos como George W. Bush e organizações como a NRA - Associação Nacional de Rifles, uma organização que busca promover a armamentação da população americana.
       
NOFX em Budapeste, Hungria, 15 de agosto de 2013.

         Outra influência é o filme Taxi Driver - Motorista de Taxi (1976) onde um ex-soldado se torna um taxista mas logo se vê revoltado e frustrado pelo que vê e sofre nas noites da cidade onde trabalha, a revolta cresce até que ele planeja cometer um atentado contra um candidato a senador.

Robert De Niro, como o taxista. O sorriso é outra marca do personagem.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Chiara Bautista



          Fã de ilustrações que sou, não poderia deixar de mostrar ao mundo [ou ao pequeno mundo que tiver o acaso de visitar este blog..] o trabalho da mexicana Chiara Bautista. No momento, meu mundo das ilustrações é movido tanto por ela quanto por Ilya Kuvshinov, esta última costuma retratar coisas atuais como animes e games, ou ilustrações de pessoas aleatórias que ela observa no metrô. Gosto do estilo absolutamente inconfundível das duas. As ilustrações de Chiara tem um bônus de contar um incrível conto de fadas atual sobre um amor impossível. A autora não costuma se mostrar ao público, sendo um trabalho quase anônimo, que pode ser acompanhado por sua página no Facebook. Ainda assim, alguns sites conseguiram entrevistar a autora e descobrir a ligação entre ela, que seria a personagem Milk, e Ilka, o homem que seria a inspiração e autor de muitas das histórias ilustradas. As entrevistas podem ser lidas, em inglês, nos sites da Beautifulbizarre.net e da Urban-muse.com, onde ela conta um pouco sobre o processo de criação, músicas e inspirações. 
























quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Entre a Solidão e a Liberdade

         Presa em minha torre e em meu tédio, uma princesa abandonada à companhia de um monstro voraz. Se eu tentar escapar à minha sina, o temível dragão me devorará. Em minha torre de pedra fria, aguardo que o indolente destino se decida por mim: devo viver em tédio ou morrer em agonia? Ambos parecem o mesmo, de onde me encontro. Tenho a minha disposição apenas uma janela, de onde vejo as estações se sucederem sem trégua. Chuva. Sol. Neve. Névoa. E o vento que leva as folhas e espanta o calor. De minha torre vejo a natureza mudar, porém de companhia apenas tenho meu algoz, que aguarda pacientemente que eu me canse da languidez dessa vida torpe e me decida por pular. 
         No meio desta floresta distante, somente a natureza muda. Ninguém passa por aqui, até mesmo a velha bruxa me abandonou. Disse-me que um príncipe me traria a liberdade em breve, e que a perdoasse o inconveniente. Anos se passaram, e aqui estou eu, à espera de meu salvador. O lugar parece ter vida própria: toda noite a bagunça que faço é arrumada, e toda manhã a comida está servida quando acordo. Tenho à minha disposição dezenas de livros, mas já os li, além disso, o conhecimento já não me apraz. Aqui nesta torre solitária, o conhecimento é mera vaidade. Posso passar horas meditando e observando o fogo da lareira no inverno. Qualquer que seja minha conclusão, ela será só minha, não há com quem compartilhar. 
         Li, certa vez, que a nossa espécie teme a solidão. Digo que já a temi, mas por convivência a aceitei como velha companheira. Como posso estar só em companhia da Solidão? Longos dias e noites mais longas ainda. Esperar é um ato temerário. Apostar que o melhor vai acontecer ou só temer o que estar por vir? Por mais que busque respostas para essas perguntas, elas são sempre respostas momentâneas, e mudam de acordo com meu humor.
          E, não tão tarde assim, chega meu herói salvador. Destemido ele mata o dragão, numa batalha longa e sangrenta. Muito cortês, ele me ajuda a sair de meu cárcere. Liberta de meu tédio, tenciono agradecê-lo imenso, porém subindo em seu cavalo, ele me olha e diz benevolente: Meu trabalho está feito. A princesa da torre está em liberdade. Aproveite-a bem, nem todos tem a sorte de possuí-la. E cá estou eu a vê-lo partir, coberto de sangue, criando seu caminho pela floresta. E cá estou eu, trilhando meu caminho, pela floresta sombria, em companhia da Solidão e da Liberdade.


quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Um Cavalheiro é Simplesmente um Lobo Paciente

          Fui tomado por simbólico, coisa que certamente não sou. Eis que durante um encontro entre amigos, entre um drinque e outro me pediram que esclarecesse um fato referente a uma primorosa dama. Não é correto jogar a lama a honra de uma mulher, mas deixar seus amigos entediados em uma festa também não é fato corriqueiro. Pus-me então a desvelar um detalhado retrato do ocorrido, senão em realidade, pelo menos em minha imaginação já um tanto enevoada pelo avançar da noite, com o sucessivo esvaziar e encher de copos. Bem sabido é - disse eu, com a voz um tanto pastosa - que D. Charlotte, possuidora de ostensivos mamares - tinha de falar na linguagem deles, para impressiona-los de imediato - já não possui a tão estimada capacidade de ruborizar! Poderia ter parado aí, envergonhado de minha atitude pouco cavalheiresca, contudo o vulgar expresso nos olhos do populacho me atrai mais que a bebida amarelenta e gelada, que mais uma vez me foi servida. Com os olhos semicerrados, como se para me lembrar melhor do ocorrido continuei meu relato, apesar de ser o torpor do álcool a me pesar os sobrolhos. Estava eu, um quarto para as nove, postado a frente de um portal, bem conhecido de vocês, quando vi um vulto coberto por uma capa negra de veludo. - tem que se admirar a minha capacidade poética, dando o devido peso ao fato de eu não estar mais me aguentando no meu. - O vulto se movia rápido, com a cabeça encoberta. Mas olhos de águia como sou e bom de formas, logo reconheci o contorno do voluptuoso corpo de Charlotte. - Tenho que confessar que percebi meu exagero nos olhos um tanto duvidosos de meus companheiros. Tomei um pequeno gole e me refiz do golpe de minha vaidade ferida. Como ousavam duvidar de minha palavra? - Como era noite entrada, e não faz meu feitio levantar falsos testemunhos, passei a seguir o objeto de minha dúvida. - Olhei em torno para me certificar de que havia reganho a atenção e carinho de meus camaradas de noites infindas, e então prossegui.

          Ao perceber que alguém se assomava em seu encalço, a impudente dama apressou o passo, e eu o meu. O medo pareceu domina-la, então ela correu, derrubando o capuz que encobria sua identidade. Num movimento surpreendentemente sublime, assomou e desceu-lhe pelas costas seu brilhante e sedoso cacheado louro. - Agora sim! Todos olhavam atentamente, aguardando o momento em que eu a desmascararia, relegando-a a mais subjugada humilhação. Como a humanidade é torpe, pensei, e como sou um perfeito e digníssimo representante dela. Olhei-os do alto, com toda a superioridade presumida de quem sabe mais, respirei fundo e continuei meu relato. - Perturbada pelo ocorrido, ela voltou-se, e mirou em mim seus olhos de fera acuada. Por um instante me perdi na floresta selvagem de seus olhos verde escuros. Me aproximei e ela estacou, com olhos suplicantes. Toquei seu queixo com minha mão enluvada e disse-lhe num sussurro: Não me olhes tolamente doce criança. Bem sabias o que te esperava ao sair a estas horas, com o corpete mal ajambrado. Coloquei o braço em torno de seus ombros e levei para casa meu troféu recém-conquistado. - Olhares de deslumbre me eram dirigidos de todos os lados. Sorri, meu sorriso mais viscoso, terminei minha bebida e deixei o local. Uma saída triunfal, uma bela história e mais uma reputação destruída.




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quinta-feira, 21 de abril de 2016

Karma

Tem uma hora que as coisas não fazem muito sentido. Então, o que se poderia pensar senão que realmente estamos num ciclo eterno de reencarnações? Eu tenho a forte impressão de que, em uma vida passada bem próxima, fui um escritor. Um daqueles velhos escritores falidos, viciados em uísque e cigarro, abandonados pela esposa. Esposa esta que fugiu com meu melhor amigo. Isto explicaria a desconfiança e o desgosto pela iníqua humanidade. E lá está ele, sentado no lugar mais escuro e imundo do bar, quase desmaiado, remoendo seu ódio, sem forças para levantar. E cá estou eu, remoendo dores desconhecidas, sem saber que caminho tomar.

terça-feira, 19 de abril de 2016

The Backwater Gospel



          Achei esta animação porque achei uma música de Justin Cross que a usava de plano de fundo [não, não lembro o nome da música]. Como faltavam pedaços, fui buscar maiores informações. Este foi um projeto, workshop (Bachelor film project 2011, The Animation Workshop), em que Bo Mathorne dirigiu. Estudante brilhante, eu diria. Ele une um cenário sombrio do velho oeste a uma crítica religiosa escancarada.

A cena se passa numa cidadezinha no meio do nada, chamada Backwater. Os personagens tem um estilo meio amarelado e cheio de sombras [me lembra um pouco Gorillaz]. Há um daqueles mendigos bardos, tocando violão e meio que desafiando o líder religioso local. Até que é anunciada a chegada do coveiro. Todos entram em pânico. O coveiro é um anunciador da morte, [o Anjo da Morte], e ainda não há nenhum morto. Morte e medo dançam caoticamente durante todo o tempo.




"The Undertaker raises no hand
but I’ll fear him just the same.
His presence foretells both blood and Death
but his shoulder’s not to blame.
Like the shadow of the vultures
circling blackly overhead,
the Undertaker is drawn to Death like a knife is drawn to red."

"O Coveiro não levanta um dedo
mas vou temê-lo do mesmo jeito.
Sua presença pressagia sangue e Morte
Mas ele não carrega culpa pelo que é feito.
Como a sombra dos abutres
que do alto têm agourado,
É a faca atraída pelo sangue, e o Coveiro pela Morte chamado."¹




        C.P.:  Tenho um certo gosto pelo sombrio e um tanto quanto mórbido. Tim Burton seria um bom exemplo disso, não fosse o fato de ser até muito alegre. Dizem que buscamos histórias de guerra ou sofrimento para tentar aplacar nossa angústia interior. Afinal, tem alguém que está sofrendo mais que a gente, então podemos seguir com nossas vidas. Por falar em morbidez, me revolta, e no entanto,  não consigo deixar de ficar presa por narrações que envolvem guerras ou relacionamentos destrutivos. Coisas que mostram o lado mais podre do ser humano. Tenho algo de errado? Bastante provável. E qual é a daquele arco-íris?
P.S.: Achei a música do Justin Cross, é Drink the Water.

¹Tradução minha.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Despair

Ele deu outro trago em seu cigarro, profundamente. Soltou a fumaça lentamente, apreciando cada segundo que o aproximava mais da morte. Tomou o último gole de seu uísque já aguado, se levantou da mesa imunda, pagou sob um olhar de desagrado do barman. Sempre desapontando as pessoas, pensou sem humor. Por que sempre somos julgados e apontados tão bruscamente por oportunidades que nunca tivemos? Nada mais restava, não mais esperança, nem vontade de viver. Pegou seu casaco e saiu da meia luz proporcionada pelo pub, encontrando uma chuva fina e indefinida numa rua deserta e mal iluminada. Andava tropegamente, não pelo álcool, mas pela vida que agora pesava como uma condenação. Onde tudo acabou? Quando deixou de existir, até para si mesmo?

Aprendeu cedo que a vida não era fácil, e que teria de batalhar pelo que queria, e assim o fez. Até que um dia, num entardecer úmido, numa calma vazia, descobriu que estava solitário, que não sabia mais porque batalhar. Poderia enfrentar a vida, não tinha medo, nem preguiça de o fazer. Mas por que deveria se dar ao trabalho? Se sentiu só, seu trabalho não lhe dava qualquer tipo de satisfação. Nem mesmo as coisas de que um dia havia gostado de fazer o animavam a viver. Quando tudo perdeu o sentido? Caminhava devagar, já sem medo das ruas escuras e mal frequentadas. Há muito havia percebido que a sociedade é um hospício em grande escala, e que se tem de manter a farsa e viver prisioneiro das futilidades e do medo por ela impostos. Percebeu a desimportância, o vazio, proporcionado por seu trabalho de homem de terno. Sentado atrás de uma mesa, pensando em como arrancar mais dinheiro e desespero de quem não mais os tinha para oferecer.

Entrou em pânico, largou tudo. Uma camada de mormaço passou a encobrir sua vida. O dinheiro que tinha foi desaparecendo, e com ele seus supostos amigos. Observou-os ir, passivamente. Todo o sarcasmo e autopiedade de uma vida o abandonaram. Nada possuía, e nada o possuía. Sentiu a liberdade triste dos que nada tem a perder, e abraçou o vazio do álcool e do cigarro, que lhe trariam uma passageira sensação de bem estar, e também o levariam a um fim mais rápido. Não temia um castigo posterior, mas também nunca tinha tido esses arroubos de coragem que fazem a humanidade evoluir de tempos em tempos.

Tremendo de frio, encharcado em uma madrugada qualquer, continuava em busca de seu mais novo objetivo. Não encontrou vivalma, assim como não havia encontrado abrigo ou esperança, até chegar à ponte. Contou onze passadas largas até atingir a metade da ponte. Olhou para os dois lados. Ah! Que a esperança nunca nos abandona, mas não raro nos decepciona. Observou a névoa que já quase se havia dissipado pela chuva. Uma forte rajada de vento o atingiu, balançando os cadeados presos às grades já enferrujadas da ponte. Quantos sonhos se terão realizado? E quantos terão morrido, convulsos em desespero? Segurou a grade, içando-se para seu destino já pintado em negro. Tomou fôlego e se jogou no vazio à sua frente, fugindo para sempre do vazio de sua vida.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Café

          Deixe-me contar uma história. Era uma vez uma garota triste em um mundo sombrio. Ela via a vida passar, mas se sentia isolada, como que numa dimensão à parte. Vivia sozinha, e era assim que se sentia. A solidão lhe pesava, às vezes, não tanto quanto supunham as pessoas do outro lado do vidro. Gostava do silêncio calmo, de poder aproveitar um bom livro, ou um bom livro ruim. As demais pessoas não a entendiam, e nem ela lhes devia satisfação. Gostava de sua bagunça e coisas jogadas por toda a sala. Sabia onde encontrar tudo de uma maneira fácil e bem estruturada, e o melhor de tudo, sabia que não estava tentando manter uma sala "impressionável".

          Há muito abandonara as expectativas das pessoas a seu redor, tanto de amigos, parentes ou dos sugadores da felicidade alheia. Alheia. É como se sentia, alheia ao mundo ao redor. Desligada de suas correrias sem sentido, suas buscas egoístas, seus desejos medíocres. E mais de uma vez teve que respirar fundo e tentar não julgar as pessoas. Cada um tem seus motivos, e toda uma vida que os molda como são. Contudo, sentada em seu sofá gasto, confortável, ela olhava desesperançada para uma multidão de passantes. Todos muito sérios, muitos certos de suas vidas. Carregando suas maletas muito bem seguras, dentro delas todo o seu orgulho fútil. Passavam velozes, correndo pela vida, sem parecer notar que o ponto de chegada é sempre a morte.

          Sentada, tomando o santo líquido que a manteria desperta e capaz de aguentar mais um dia de chateações: café. Em meio aos papéis jogados e ao lixo de alguns dias, semanas... profundas olheiras, advindas de mais uma noite insone. Tanta coisa na cabeça. Tantos sonhos e problemas, tudo misturado. Já nem sabia mais se ainda queria seguir em frente. Uma velhinha para na rua, indecisa sobre qual caminho seguir. Ela tenta parar um dos transeuntes: "Não está vendo que estou falando no telefone?!". A garota o imagina dizer, enquanto ele se afasta apressado. Um dia, talvez, ele descubra que há coisas mais importantes que uma ligação. Que parar um momento para ajudar uma alma necessitada pode ser a única coisa da qual ele não se arrependerá no fim de sua vida fútil.

          O cabelo preso num coque bagunçado, a roupa larga, velha e confortável de dormir. Julgamentos. Toda a pressão de estar "apresentável" recai sobre ela. "Vista essa roupa!", "Essa é muito curta!", "Essa faz você parecer velha.", "Muito sombria.", "Colorida demais!". E mais uma infinitude de bobagens desnecessárias. A fumaça sobe, rodopia, trazendo o aroma agradável do café. Nas ruas a fumaça destruidora dos veículos. Um carro buzina. Uma mãe descuidada arrasta uma criança assustada e soluçante do meio da rua. Atenção sempre! Estamos ligados vinte e quatro horas por dia, sem descanso. Até quando dormimos somos dominados por sonhos ruins, resultado de mais um dia estressante. Mais alguns minutos e ela criará coragem e se levantará para ir trabalhar. Mais um pouco de coragem e ela largará o emprego ruim e irá em busca do que realmente gosta. Mais um esforço grandioso, vindo do fundo da alma, de seus desejos mais revoltados por terem sidos subjugados por tanto tempo, a farão se levantar para a vida, indo em busca da única coisa que nos move a todos: os sonhos.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

O Trem dos Órfãos

Autor: Christina Baker Kline

Tradutor: Júlio de Andrade Filho


Gênero: Romance histórico/Ficção
Editora: Planeta
N° de Páginas: 304



"Aprendi há muito tempo que a perda não é apenas provável, mas inevitável. Sei o que significa perder tudo, sei o que é abrir mão de uma vida e encontrar outra."





          Quando você é um órfão problemático.. redefinindo: quando você é um órfão, muitas vezes, tem de lidar com trocas de famílias. Isso porque muitos dos que se candidatam a ser pais não estão preparados para lidar com isso, ou estão apenas interessados no dinheiro dado pelo governo para a "manutenção" dessas crianças. E quando você é um órfão num período de guerra ou crise, sua única opção é ser bonito, quando bebê, e útil, quando mais velho. Essa é a história de Molly, uma garota órfã, que não está se dando muito bem com sua nova família adotiva. Como não havia se dado com a outra, afinal, não se pode confiar nos adultos. Acontece que dessa vez ela queria ficar. Estava prestes a se tornar maior de idade, e também tinha seu namorado, que ela não fazia ideia de porque gostava dela. Molly, como muitos adolescentes, resolveu usar a máscara de gótica [claro que para muitos também não existe isso de "é só uma fase"... há os que adotam o estilo para a vida..] para conseguir alguma confiança para continuar com sua vida. 

          Sua nova 'mãe' não a aceita e quer devolvê-la [isso mesmo: essa está com defeito, quero trocar..]. Já seu novo 'pai' é um ser mais pacífico, beirando a passividade. Molly teve de se tornar muito independente, até mesmo desconfiada. Tem uma paixão por literatura, e é essa paixão que a faz se meter na encrenca que faz as engrenagens dessa história começarem a girar. Molly quer muito um livro, mas não tem dinheiro pra comprá-lo, e não quer incomodar ninguém com isso. Então, ela tenta furtar um exemplar da biblioteca e é pega. Como castigo ela tem de fazer serviço comunitário, uma alternativa ao reformatório. Seu namorado [em geral não sou boa com nomes.. ??] a ajuda, oferendo um serviço na casa onde sua mãe trabalha. O serviço é ajudar uma senhora idosa a limpar o sótão de uma vida inteira de lembranças [impressionada até agora em como ela guardou certas coisas..].




          Vivian Daly é uma senhora de 91 anos de idade e muitas histórias pra contar. Ela é uma senhora calma e contida, do tipo que bebe chá e veste rosa claro. Meio desconfiada, Molly começa seu trabalho para cumprir as cinquenta horas requeridas. Acontece que remexer em coisas antigas traz lembranças, que nem sempre boas. Aqui entramos no mundo de Vivian. A família de Vivian era irlandesa, e haviam imigrado para os EUA em busca de melhores condições. Isso, claro, em geral costuma ser uma ilusão. Eles enfrentaram o porão de um navio e sobreviveram [isso deveria ficar nas ficções.. triste realidade, ainda atual..]. Em 1929, vivendo em um cortiço imundo, Vivian, então Niamh ['Pronuncia-se “Ni-iv”.'] cuida de seus irmãos, enquanto seu pai bebe todo o salário, e sua mãe definha. Um incêndio mata toda sua família, deixando Niamh ao encargo de um orfanato. 



          Partindo agora para uma realidade ocorrida nos EUA, entre 1853 e 1929, temos um programa que buscava "desinchar" as cidades, que estavam superlotadas devido a industrialização e imigrações. Os órfãos, crianças abandonadas e afins, eram então enviados em trens para as áreas rurais. O trabalho era feito por instituições de "caridade", sendo a mais famosa a Children's Aid Society. Esse programa também tinha como objetivo retirar as crianças de famílias onde havia casos de abuso, e também evitar que estas ficassem nas ruas, iniciando-se na vida criminal. Parece exagero, mas a estimativa de crianças abandonadas em 1854, somente em Nova Iorque, era de 34 mil. Havia um responsável em cada localidade, por verificar o bem estar das crianças nos novos lares. Mas como bem representado no livro, os adultos raramente levam as crianças a sério [Desventuras em Série!!], ou querem se dar ao trabalho de fazer algo.






"Todas essas crianças enviadas em trens para o Meio-Oeste, recolhidas nas ruas de Nova York como lixo, aquele lixo que eles colocam nas barcas, e enviadas para o mais longe possível, fora da vista de todos."








          Essa prática perdurou até os anos 20, quando a Grande Depressão fez com que uma nova boca a alimentar se tornasse indesejável. E é exatamente durante este período que Niamh é enviada em um trem, onde ela conhece Dutch [lembre-se dele..]. Ela está amedrontada e sente falta da família. Mas viaja de estação em estação, para ser avaliada como um cavalo pelas famílias adotantes. Ela é uma das últimas a ser levada, por ser velha demais e ainda por cima estrangeira [ruiva com sardas..]. Vivian passa a viver numa casa com costumes muito rígidos, pouca comida, e onde ela tem de trabalhar como costureira para sobreviver. Ela tem uns oito anos aqui, e uma autoconsciência invejável. Logo a crise chega a área rural. Já não há tantos pedidos de costuras. Vivian é então dispensada pela família, sendo levada a um novo lar. Aqui ela vive num lugar imundo e miserável, com um monte de crianças sujas e uma mulher grávida meio louca. Quase é estuprada pelo novo 'pai', foge para a casa de sua professora, e encontra um lar de verdade lá. Porém isso não dura. Logo ela tem de partir, mas dessa vez ela permanece. Daqui por diante é mais sobre romance e sobre a Molly. 




          O contexto histórico é a parte mais impressionante deste livro, pois a história de Vivian poderia ser a história de muitas crianças estadunidenses. Crianças que eram postas para trabalhar muito cedo, que sofreram maus-tratos ou até abusos, e que não tiveram o amor de uma família. Antes delas chegarem nos trens, eram postos cartazes com avisos, à procura de lares. O uso de propaganda e sua efetividade ainda hoje me surpreendem. Apesar das dificuldades, muitos sobreviveram, e alguns participam de encontros anuais que viraram uma tradição, para trocarem experiências e contarem suas histórias.




C.P.: E o que posso dizer?? Livros com fundo histórico muito me interessam. Principalmente porque andei pesquisando sobre os conceitos de infância e sobre trabalho infantil. Isso por conta de um trabalho sobre Dickens, que foi um grande crítico do trabalho infantil em sua época. Houve um tempo em que crianças não tinham esse status. Eram vistas como pequenos adultos, iniciando a vida no trabalho aos cinco anos de idade, com cargas horárias monstruosas de mais de 12 horas diárias. Aí você pensa: Nossa, Idade Média isso! Não, séculos XVIII, XIX, plena Revolução Francesa, Era Vitoriana, com chá das cinco e vestidos volumosos. Em geral, minha revolta fala mais alto. Conhecer o passado para não repeti-lo é essencial!!